Mostrando postagens com marcador Racismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Racismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de maio de 2014

Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro - Liberdade para o Luis!

Nota do Bloco de Luta em solidariedade ao jovem Jorge Luis, preso no dia 13 de abril.

''O Bloco de Luta pelo Transporte Público vem através desta nota solidarizar-se com o companheiro Jorge Luís, preso na Assembleia ocorrida em 13 de abril de 2014, assim como denunciar o atual racismo institucional presente em nosso sistema penal.

A prisão de Jorge Luís foi efetuada sem quaisquer provas além do que foi dito pelas próprias vítimas e amigos, que lhe imputam a participação em supostos crimes cometidos por outra pessoa, não identificada.

Jorge Luís, trabalhador, sem antecedentes criminais e com residência fixa, foi preso em falso flagrante, o qual foi convertido em prisão para preventiva. Responde, assim, de dentro do Presídio Central - o pior presídio do Brasil -, a um Estado de Direito que rasga a sua própria legislação ao negar a presunção de inocência e a condenar antes mesmo de um julgamento.

A nós, entretanto, isso não é novidade. Não faltam estudos demonstrando que o crime está presente em todas as classes sociais e etnias. No entanto, o sistema penal, como é de sua natureza, tem sua "clientela" preferencial, geralmente selecionando a juventude negra e pobre.

Este é mais um dentre milhares de casos em que, sob a justificativa de "manutenção da ordem pública", continua-se a utilizar do sistema penal como ferramenta de extermínio da juventude pobre e, especialmente, negra.
Não silenciaremos em relação a mais essa violência do Estado.
Liberdade para o Luis, Já!!



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Racismo no futebol, que novidade!

As denuncias aos casos racistas esse ano, coloca em pauta uma discussão antiga. O que começou com Tinga e com o arbitro Márcio Chagas da Silva tem continuidade essa semana com a atitude inusitada de Daniel Alves. O jogador comeu uma banana que foi arremessada em sua direção ao cobrar um escanteio no jogo Barcelona x Villarreal no Campeonato Espanhol.


A sociedade futebolística, depois de anos ignorando os inúmeros casos de racismo no futebol está cada vez mais se pronunciando. A agencia publicitária de Neymar  lançou a campanha na internet #somostodosmacacos e, como na maioria dos debates sobre qualquer problema social pautado mídia e seus ascensoristas , o tiro saiu pela culatra!

‘Macaco’ é um termo racista advindo de teorias racistas do início do século XIX que colocava que negros tinham características genéticas que se assemelhavam as de macacos, de que negros eram menos ‘evoluídos’ e isso justificou por muito tempo o trabalho escravo e o genocídio do povo negro. Atualmente o conceito de raça biologicamente já foi superado, contudo no imaginário social o racismo está alicerçado em nossa constituição social, ele é estrutural em nossa sociedade. Ou seja, cabe a nós combatê-lo diariamente, e pra isso, o primeiro passo é reconstituir essa história, e nela, macaco é um termo racista sim!



Não queremos entrar no mérito de quem aderiu essa campanha, problematizamos aqui o ‘macaco’ e também a hipocrisia dos ‘famosos’ que se utilizam do sofrimento causado pelo racismo pra se promover sem a mínima reflexão sobre o que significa tal termo. Sem a mínima implicação referente a questão racial, sem reconhecer o lugar de privilegio que ocupam. Sem reconhecer a herança concreta e simbólica herdada do racismo.

Se a ideia inicial era ‘mexeu com ele mexeu comigo’ uma questão é importante: não somos todxs iguais, e nem queremos/precisamos ser. A diferença é o que nos torna únicos, e se tratando de negros em um país que se beneficiou por quase quatro séculos de trabalho escravo, respeito às nossas diferenças e REPARAÇÃO é o que precisamos! Muito menos da falsa propagação de democracia racial.

O racismo não se discute com ‘fotos de amigos segurando bananas’. Ao trazer esta pauta para periferia, o resultado é mais do que previsível. É tiro na certa. Amarildos, Claudias, Douglas são exemplos da violência racista do Estado. Para a Polícia militarizada, que defende as fronteiras do luxo e do lixo, o inimigo tem classe e tem cor. É pobre e é negro. Não hesita em puxar o gatilho.  Com sucesso, mais um neguinho é assassinado. Esta é uma polícia de extermínio.

Onde estava toda a indignação dos famosos com os casos citados anteriormente? É muito engraçado ver que para estes casos não existe campanha de "conscientização". Pelo contrário, as justificativas se somam, no jornal, no programa pra periferia do domingo, na telenovela. Importante lembrarmo-nos do texto escrito e publicado pelo Luciano Huck que ao ter seu relógio Rolex roubado num assalto não hesitou em chamar o ‘capitão Nascimento’, figura fictícia do Tropa de Elite, pra discutir segurança pública.

Não deixemos que a elite midiática nos diga o que pensar, nem aponte as saídas pra problemas que são nossos. O racismo está longe de ser superado, e enquanto houver consentimento do oprimido, os opressores continuarão a nos esmagar!

#nãosomostodsmacacos
Contra o Genocídio do Povo Negro e o Extermínio de sua Juventude


domingo, 30 de março de 2014

Futebol, Sociedade e Racismo

Por Alisson Batista

     Lembro de certa vez ir ao estádio para assistir um Grenal. Era o primeira vez que meu irmão assistia um clássico no Beira-Rio. Para quem gosta de futebol, esse jogo é especial por "n" fatores que aqui não cabem citar. O fato é que o estádio estava com um bom público, cerca de 30 mil pessoas. Sempre gostei de ficar próximo as torcidas organizadas (tanto é que posteriormente me filei na Camisa 12), por causa da emoção e da festa. Mas nesse jogo em específico, como estava com meu irmão pequeno, resolvi me afastar do "tumulto" e assisti ao jogo do outro lado do estádio, próximo ao espaço dedicado a torcida gremista. O ocorrido nesse jogo que interessa para esse texto aconteceu no momento que Internacional, time que eu torço, tomou um gol. Por alguns instantes, todos o colorados naquele estádio vivenciaram a mesma perplexidade, por alguns instantes todos os colorados naquele estádio sentiram exatamente a mesma espécie de angustia por ter sofrido um gol . Mas no instante seguinte, acredito que somente eu e meu irmão compartilhamos algo em comum. Momentos após o gol, cerca de três mil pessoas vestidas de azul entoam, de forma sincronizada, "Olha a festa macaco/ Torcida é coração...". A impressão que eu tive foi de todo o estádio realmente olhar a festa tricolor. Ainda processando todo o ocorrido, meu irmão me interrompe e questiona: "Porque eu sou macaco?" 

    Não vou falar aqui dos processos de subjetivação que uma criança negra passa no Brasil, mas enquanto ouvirmos "chora macaco imundo" e "Olha a festa macaco" entoado pela torcida gremista, o racismo estará sendo perpetuado, mesmo que de maneira simbólica. Há varias versões sobre a origem do "apelido" macaco... Mas a materialidade do ato sobrepõe qualquer "origem" ou "intenção". Pouco importa qual a “intenção” de um gremista ao reproduzir essa palavra. O fato consumado é apenas um, ao reproduzir a palavra “macaco”, dentro desse contexto, está se reproduzindo o racismo. Querer dissociar a palavra "macaco" do racismo é como querer dissociar a suástica do nazismo. Embora alguém possa usar o argumento de que hoje tem um outro significado(a palavra macaco), é possível usar o mesmo argumento em relação a suástica, que tem origem na cultura Hindu e significa vitória... Todavia, hoje é impossível não associar a suástica ao nazismo, assim como não associar “macaco” ao racismo. O signo social que essa palavra tem é mais forte do que qualquer intenção! 



    Recentemente tivemos um caso com o atleta Paulo Cesar Tinga, ao entrar no segundo tempo do jogo válido pela libertadores da américa, sofreu racismo por parte dos torcedores do Real Garcilaso. A cada toque na bola que o atleta dava, os torcedores emitiam um som uníssono imitando um macaco. Achei curiosa a reação da sociedade em geral com relação ao fato ocorrido com o Tinga. Varias manifestações de apoio ao jogador se proliferaram na internet, inclusive a presidente Dilma com a hastag "FechadoComOTinga". Imagino que esse suposto apoio e o "combate ao racismo" seja efeito de uma grande comoção com o ocorrido. Mas me pergunto, por que esse apoio não acontece constantemente? Por que somente com casos tão explícitos a sociedade surge em peso condenando tais atitudes... Por que o racismo dos outros é mais condenável que o racismo brasileiro? O que está levando aos sujeitos do esporte a estarem fazendo mais denúncias de racismo no futebol brasileiro? 
     
    O caso ocorrido com o jogador Tinga precedeu outros dois ocorridos importantes sobre a questão. O primeiro com o árbitro Marcio Chagas, que foi escalado para um jogo no interior do Rio Grande do Sul, onde fora insultado dentro de campo e posteriormente seu carro estava com marcas de chutes e com cascas de banana sobre o capô. Já o segundo caso ocorreu com o jogador Arouca, do Santos. Enquanto dava uma entrevista para uma radio de São Paulo, um grupo de torcedores do time adversário começou a chamá-lo de macaco, isso ao vivo. Essa sequência de fatos reacendeu a discussão a cerca do racismo no futebol dentro do país, digo isso porque no mundo futebolístico, principalmente aos clubes europeus, situações racistas e xenofóbicas são comuns dentro dos estádios, como as denúncias as torcidas da Polônia e Ucrânia por terem agredidos torcedores asiáticos e saudações nazistas. 
     
      Muito se fala em punição como a grande solução para os casos de racismo. Mas acredito que estão envolvidas certas especificidades nos casos citados. Fica evidente que o racismo está presente tanto nos cânticos da torcida gremista quanto nos ocorridos com o Tinga, Marcio Chagas e Arouca. Vejo na torcida gremista uma manifestação coletiva e recorrente, mas não necessariamente consciente de racismo. Não vejo como positivo a torcida gremista deixando de cantar "chora macaco imundo" por medo de uma punição, mas o ideal seria que compreendessem como o racismo está sendo reproduzido nesse cântico. É um trabalho muito mais complexo e que exige um grande esforço coletivo, e talvez essa possibilidade seja utópica. Aqui falo de um processo que chega a ser um chavão quando se discute questões sociais: Educação. Apenas punindo a torcida gremista, não estaremos fazendo esforço para solucionar (obvio que o futebol não solucionará sozinho nenhuma questão social, todavia esse argumento não o exime de qualquer responsabilidade) essa questão, estaremos simplesmente transferindo ela para outras esferas. 

    Confesso que tenho fortes questões no que diz respeito à punição. Não são raros os exemplos de como apenas punir é insuficiente para sanar problemas sociais. Todavia, é necessário reconhecer um certo limite do futebol em adotar medidas pedagógicas. (ou um limite meu em não enxergar outra possibilidade),. Nos casos do Tinga, Marcio Chagas e Arouca fica muito difícil pensar em outra perspectiva que não a punição para uma resposta imediata e efetiva aos ataques racistas. Os clubes devem sim responder por seus torcedores. No futebol, dentro do estádio, o torcedor é uma extensão do clube e vice-versa. Nesse processo, o clube acaba sendo convocado e pensar e agir junto aos seus torcedores numa perspectiva de evitar que novas expressões de racismo ocorram. 

    Existe outro mérito importante que deve ser citado nessa discussão: a especificidade. É comum, ao debatermos a questão do racismo no futebol, questões de uma ordem diferente surgir. Quando um torcedor do Internacional fala sobre a questão dos cânticos gremistas, por exemplo, surge quase como uma autodefesa a questão da homofobia: "Eu falo macaco, e tu que fala veado". Em nenhum momento é negado as expressões homofóbicas presentes no futebol. Quando é abordada a questão do racismo, não está em disputa qual torcida leva o titulo de mais ou menos preconceituosa. Talvez a questão da homofobia seja ainda mais complexa, está ainda mais enraizado na cultura futebolística. A manifestação explícita de homofobia ainda é socialmente muito aceita. A homofobia e o racismo, embora igualmente inaceitáveis, tem especificidades que merecem diferentes enfoques. Trazer a tona ambas questões para o mesmo debate provoca efeitos muito menos potentes do que aborda-los em diferentes momentos.